quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Tantra: A Estrutura Comportamental do Yôga Pré-clássico

 


Por Mestre Sergio Santos

Tantra, ou Tántrika, é uma filosofia comportamental originária do período dravídico e pré-dravídico.
Sanskrit-English Dictionary de Monier-Williams traduz o termo Tantra como encordoamento de um instrumento musical; regulado por uma regra geral; relativo aos tantras; a música de um instrumento de cordas.
A palavra Tantra pode ser analisada sob diferentes pontos de vista, como, por exemplo, trama do tecido ou teia. Interpretada de maneira poética e iniciática, seria algo como uma teia de aranha na floresta pela manhã, incrustada de gotas de orvalho, parecendo com sutis diamantes brilhando ao sol. E quando essa teia fosse tocada grosseiramente pelo profano, se desvaneceria instantaneamente.
Noutra abordagem, a palavra Tantra pode ser dividida em duas partes. A raiz tan nos dá uma idéia de sabedoria, e tra (instrumento, mecanismo), noção de espalhar ou de salvar. Portanto, de caráter mais filosófico, Tantra é definido como “aquilo que esparge a sabedoria”.
Acrescentamos finalmente mais uma interpretação, utilizada por Shivánanda. Sintética e genericamente, ele define: “Tantra explica o conhecimento relativo a tattwa e mantra”. Tantra Yôga, Nada Yôga, Kriyá Yôga, pág. 25.
Existem três fases históricas do Tantra: a mais antiga, do período Pré-Clássico, dravídico; a Clássica, adaptada aos costumes arianos; e a Medieval, marcada intensa produção literária, a partir da qual temos acesso hoje em dia. As duas primeiras fases foram influenciadas pela filosofia Sámkhya; enquanto a última fase, pelo Vêdánta.
Nos dois primeiros capítulos deste livro vimos como determinadas características culturais aborígenes da Civilização Harappiana acabaram por ser absorvidas pelos arianos. Muitas práticas dravídicas foram expressas num variado simbolismo, fazendo com que o Tantra tomasse parte importante na formação do hinduísmo.
Os textos tântricos surgiram na Índia, aproximadamente, entre os séculos iv d.C. e viii d.C. Durante esse período, tiveram tanta força que influenciaram outras filosofias, artes, ciências e religiões. Por isso, é freqüente encontrarmos escritores que, ao discorrerem sobre o Tantra falam dele como tendo nascido durante esses quatro séculos. Foi nessa época que surgiram os primeiros documentos escritos em papel, conquanto a tradição tântrica já existisse milênios antes de ser registrada em livros.
O Tantra ressurgiu no período medieval bastante marcado por uma linguagem devocional e influenciado pelo espírito religioso da época. Por isso, quase toda a literatura tântrica é marcada por tais características.
Durante a sua evolução histórica, o tantrismo ultrapassou as fronteiras da Índia, seu local de origem. Podemos observar a sua influência na China, no Tibet e no Camboja, onde foi incorporado pelo budismo, lamaísmo e taoísmo, respectivamente. Como uma das propostas deste livro é concentrarmos nas origens mais antigas das tradições, estudaremos o tantrismo apenas sob a ótica hindu.
Há mais de quinhentos Tantra Shastra. São obras que se destacam por excessivo ritualismo e grande complexidade literária, difícilmente compreendidas nos dias atuais. Não nos esqueçamos que a linguagem utilizada para transcrever esse tema foi desenvolvida dentro de uma sociedade brahmáchárya, ainda por cima na Idade Média, logo, vêdantizada. Finalmente, tudo foi traduzida para o inglês, e interpretado sob uma inegável influência cristã.
Como se isso não bastasse, muitos livros desse período medieval encontram-se inacabados enquanto outros permanecem reticentes em pontos importantes. “Grande parte dos textos se perdeu, foi extraviada ou destruída e dos que sobraram, somente foi impressa uma parte, cujas inúmeras versões, geralmente, se contradizem.” (John Woodroffe, Princípios del Tantra, pág. 31). Em suma, não podemos chegar ao verdadeiro conhecimento do Tantra baseando-se simplesmente em livros, mesmo clássicos antigos.
O Tantra em si diz respeito a todo um padrão comportamental que foi marginalizado. Após as primeiras incursões arianas na Índia, o modo de vida dos drávidas foi condenado e, bem mais tarde, na Idade Média, é que essa tradição mais antiga emergiu sendo novamente exercida, ainda que adaptada aos costumes da época.
Em sua forma mais autêntica, essa filosofia comportamental distingue-se por ser gupta vídya, ou seja, conhecimento secreto. Por isso, a única via de acesso à aprendizagem eficaz e genuína é aquela que tem sido perpetuada, até hoje, no mundo inteiro, através da relação Mestre-discípulo.

Características 
e Princípios Tântricos
O que mais caracteriza os povos antigos, dravídicos e pré-dravídicos da Índia, é a relevância da mulher no contexto social. As divindades femininas do hinduísmo, as shaktís, simplemente representam a forma mitológica e simbólica daquela sociedade matriarcal primitiva.
No Rig Vêda, por exemplo, a Shaktí é descrita como residente no Céu e como aquela que sustenta a Terra. A Taittiríya Upanishad diz: “considera tua mãe como uma deusa”. E Mircea Eliade conclui: “O que existe na Índia atual, em relação ao culto às divindades femininas, nada mais é que um segmento da herança matriarcal dos povos antigos” (Yôga. Inmortalidad y Liberdad, pág. 331).
A palavra Shaktí significa energia ou força. Pode ser interpretada sob três aspectos. O primeiro, popular, é simbolizado pelas imagens e expressado na devoção às divindades femininas do panteão hindu, tais como Saraswatí, Lakshmí, Kalí, Parvartí, etc. Nesse aspecto, a Shaktí é conhecida como a mãe divina: aquela que gera, nutre e protege. O segundo aspecto se refere à própria mulher, como esposa ou companheira. Por último, ela diz respeito à energia adormecida em cada ser humano, chamada kundaliní.
Por força do matriarcalismo tântrico, evidenciam-se as outras duas características: a sensorialidade e a desrepressão.
Conforme escreve o Mestre DeRose, “Toda sociedade na qual a cultura não era centrada na guerra, valorizava a mulher e até mesmo a divinizava, pois ela era capaz de um milagre que o homem não compreendia nem conseguia reproduzir: ela dava a vida a outros seres humanos. Gerava o próprio homem. Alimentava-o com seu seio. Por isso era adorada como encarnação da divindade mesma. E mais: através das práticas tântricas, era a mulher que despertava o poder interno do homem por meio do sexo sacralizado. Ainda hoje ela é reverenciada assim na linha tântrica.”
“Daí, a qualidade matriarcal. Dela desdobram-se as outras duas características. A mãe dá luz pelo seu ventre – isso é sensorial. Alimenta o filho com o seu seio - isso é sensorial também. Não poderia ser contra a valorização do corpo, não poderia ser anti-sensorial como os brahmácháryas. A mãe é sempre mais carinhosa e liberal do que o pai, até mesmo pelo fato de o filhote ter nascido do corpo dela e não do dele. E também porque é da natureza do macho ter mais agressividade e menos sensibilidade. Pode ser que tal comportamento tenha muita influência cultural, mas é reforçado, sem dúvida, por componentes biológicos.”
“Por tudo isso e ainda como conseqüência da sensorialidade, desdobra-se a qualidade desrepressora do Tantra” (Yôga: Mitos e Verdades, Mestre DeRose, pág 127, 36a. ed.).
O comportamento tântrico está isento de censura ou sentimento de culpa, um condicionamento cultural da sociedade brahmáchárya que dá valor, principalmente, à castidade. No judaísmo, cristianismo e islamismo, por exemplo, a evolução interior só pode ser obtida pelo sofrimento e pelo controle dos impulsos, desejos e sentimentos. Ao contrário, a cultura tântrica, provavelmente a única desse tipo no mundo, demonstra que a espiritualidade pode ser desenvolvida através da desrepressão e do prazer.
Shivánanda, Mestre de Yôga de linha Brahmáchárya/Vêdánta (portanto, oposta à estirpe Tantra/Sámkhya), ainda assim faz elogios ao tântrismo, dizendo que “desdenhar ou negar as necessidades do corpo pensando que elas não são atos sagrados é desdenhar e negar a grandeza da unidade do todo, da identidade última da matéria e do que há além dela (...). As mais grosseiras necessidades físicas têm uma significação cósmica. O corpo é Shaktí. Suas necessidades são necessidades de Shaktí; quando o homem regozija-se, é Shaktí quem regozija através dele.” (Kundaliní Yôga, S. Shivánanda, pág. 25).
No hinduísmo existem dois movimentos culturais que caminham lado a lado, mas nunca se tocam. Um deles, mais recente (com cerca de 3.000 anos!), chama-se váidika. Refere-se àquilo que está nos Vêdas. O outro movimento, mais antigo, chama-se tántrika e se refere a um agrupamento de tradições, cujos ensinamentos originais não estão compilados em livros. Quase todos os hindus seguem a tradição váidika, enquanto uma ínfima minoria segue a tradição tántrika. Para o hinduísmo, “os Tantras estão para os Vêdas assim como o perfume está para as flores”.
Uma máxima tântrica diz: “quando caímos ao chão, levantamo-nos com o auxílio do chão”. Tal afirmação é dirigida especialmente aos opositores do Tantra, os quais dizem que para atingir a espiritualidade deve-se negar o corpo. Para os tântricos, se a Natureza nos dotou de instintos, emoções e sentidos, conseqüentemente, tudo o que tenha a ver com isso deve ser plenamente vivenciado e valorizado, transformando-se numa eficiente ferramenta de evolução.
Nascemos com um corpo e com ele viajaremos em nosso breve espaço-tempo até que se transforme em pó, na terra da qual surgiu. Haveremos de cuidar bem dele e explorá-lo em seus recursos e potencialidades. E somente através daquilo que nos é mais íntimo, nossa presente morada de carne e osso, é que compreenderemos o Universo como nosso lar e conceberemos a Natureza como nossa mãe.
Outro importante provérbio tântrico está registrado no Vishwasara Tantra: “Tudo o que está aqui está em outro lugar, e o que não está aqui não está em lugar algum” (leia mais sobre Física quântica e encontrará nessa ciência princípios bem semelhantes). Compreendemos a Natureza como um organismo vivo, cuja manifestação se divide, multiplica-se e eleva-se à infinita complexidade.
O principal axioma do shaktismo, umas das linhas do tantrismo moderno, diz: Todos os deuses estão em nosso próprio corpo. Isso significa que todos os processos químicos, biológicos e físicos da Natureza são semelhantes, quer seja numa folha de grama em nosso jardim, quer seja num coral fixado aos recifes de uma praia. Tudo o que está do lado de fora está também do lado de dentro. Todos os tattwas da Prakriti refletem o Púrusha como quem se olha diante do espelho.
Nas palavras de Van Lysebeth, “cada estrela tem vida, no sentido literal do termo, portanto está habitada por uma forma de consciência, a mesma que existe em cada partícula infinitesimal nuclear. E esta vida universal, única, se subdivide em inumeráveis planos de existência e consciência! Para o Tantra, enche até a vida interestelar... impensável? Talvez..., mas a imensidão do universo é impensável! Inclusive para o astrônomo que faz malabarismos com as centenas de milhares de anos-luz. Essas distâncias enormes são inimagináveis e entretanto são bem reais!” (Tantra, el Culto de lo Femenino, pág. 73.)
A base filosófica das escolas tântricas é o conceito de Shaktí e Shiva. Shaktí e Shiva representam os princípios feminino e masculino, energias de polaridade negativa e positiva, respectivamente. Shaktí simboliza o poder dinâmico e Shiva, o poder estático. São os dois pólos opostos que mantêm acoesão universal, sem os quais não haveria harmonia no cosmos.
Uma outra afirmação tântrica diz: Shiva sem Shaktí é shava. Sem Shaktí, Shiva não teria como agir, falar, pensar, ver ou sentir. Sem Shaktí haveria apenas um cadáver (shava), algo sem vida. Sem ela, a Natureza não teria forma; sem ele, a Natureza não teria como manifestar-se. Até para acender uma lâmpada é preciso que haja duas cargas de energia opostas que se atraem. O poder criador se manifesta devido à presença da criação e vice-versa.
Com tudo o que foi exposto, o Tantra possui características filosóficas bastante semelhantes à filosofia Sámkhya, sendo que muitos dos princípios tântricos foram sendo estabelecidos no decorrer dos séculos como uma extensão dos tattwas do Sámkhya.

Os Tattwas do Tantrismo
Existem vários ramos de tantrismo, alguns mais importantes, outros mais conhecidos, tais como o shivaísmo, o vishnuísmo, ou o shaktismo. Esse último, também chamado de tantrismo shakta, ficou bem conhecido através das obras de Sir John Woodroffe.
Todas as formas do tantrismo possuem princípios comuns, que se demonstram através dos tattwas. É útil mencionar que podem haver variações quanto à interpretação de cada princípio em si, mas que não modificam a visão de conjunto.
O tantrismo possui trinta e seis princípios, dos quais, os últimos vinte e cinco, são os mesmos do Sámkhya, nos demonstrando a relação inseparável do Tantra com o Sámkhya.
Conclui-se, então, que o Sámkhya é parte do Tantra, sua fração inicial (numa perspectiva de baixo para cima, dentro do quadro sinótico, à frente). Isso nos demonstra que a afinidade do Sámkhya é com o Tantra, como ocorre no Yôga Pré-clássico, e não com o brahmáchárya, como ocorre no Yôga Clássico.

Os tattwas do tantrismo


               1 - Shaktí                                                  2 - Shiva
               Energia dinâmica                                                         Energia estática






3 - Sadashiva
Energia da vontade (icchá)




4 - Íshwara
Energia do conhecimento (jñána)




5 - Suddhavidyá
Energia da ação (kriyá)




6 - Máyáshaktí
Energia da dualidade




Kañchuka (envoltórios)
7 - Kalá - limites da infinita força de Shiva
8 - Vidyá - limites da força do conhecimento
9 - Rága - limites da força do desejo
10- Kála - limites da força do tempo
11 - Niyati - limites da força de causa-e-efeito




                                 Púrusha                   Prakrití






                                                                                    Bhuddhi






                                                                                                                           Ahamkára






                                                                                                    Manas


                                                        Jñánêndriya                Karmêndriya               Tanmátra






                                                                                                                     Mahabhúta

As Três Linhas
e as Sete Escolas do Tantra
O comportamento tântrico divide-se basicamente em três linhas: tantrismo branco ou linha branca (dakshinachara); tantrismo negro ou linha negra (vámachara); e tantrismo cinzento ou linha cinza.
A divisão em linha branca e linha negra é apenas uma maneira didática de nos referirmos a comportamentos tântricos diametralmente opostos. Tal distinção não se refere, evidentemente, à cor da pele. A linha branca foi desenvolvida pelos drávidas, que tinham pele bem escura; e a linha negra pelos arianos, que originalmente possuiam pele clara! A linha negra é a mais moderna e foi desenvolvida com maior intensidade no século VIII da era cristã; portanto, faz parte do Tantra Moderno. E como ele sofre muita interferência da filosofia Vêdánta é a corrente mais ritualística, ao contrário da linha branca, mais antiga.
Há também uma terceira linha intermediária, chamada cinza, que mescla elementos daqueles outros dois segmentos. Assim, as três linhas do Tantra se caracterizam pela utilização ou não de: álcool, fumo, drogas, alimentação com carnes e relação sexual com orgasmo.
O Tantra possui sete escolas. São elas: Dakshinachara (a mais antiga, adotada pelo SwáSthya Yôga), Vêdachara, Vaishnavachara, Shaivachara, Siddhantachara, Kaulachara e Vamachara. Achara significa via, caminho ou linha.

A relação sexual
No Tantra, a relação sexual é denominada maithuna. O maithuna compreende, desde que haja intenção, oito maneiras diferentes de se estabelecer um contato sexual. São elas: olhar para uma mulher, andar com ela, falar com ela, pensar em fazer sexo, desejar a união sexual, propor-lhe tal união, ter a determinação de cumprir o ato e, por último, a efetivação carnal. Tudo isso faz parte do conjunto chamado maithuna. E conforme foi grifado acima, é interessante notarmos que, por ser a cultura hindu essencialmente brahmáchárya, os textos traduzidos nos últimos séculos estão sempre escritos sob uma ótica masculina!
Ao contrário dos costumes arianos, o Tantra não lida com questões morais e nem depende de modismos sociais, que se referem muito mais ao dharma do que ao karma (reveja isso no capítulo iii). Aqui não há dogmas nem muito menos culpa ou pecado, conceitos típicos das tradições patriarcais, cujas idéias restritivas no decurso dos séculos rebaixaram o status da mulher na sociedade.
Em contrapartida, ela ocupa um papel preponderante no contexto tântrico, principalmente na relação a dois. De um modo geral, é a mulher quem tomará a iniciativa para o sexo, contrariando o que ocorre na tradição brahmáchárya. Nesta, o homem comporta-se como caçador, enquanto a mulher como caça. Uma das maneiras de identificar a influência do Tantra numa escultura ou pintura hindu retratando um homem junto a uma mulher, encontra-se no fato desta estar por cima ou à frente do homem.
Para essa filosofia matriarcal, existem três tipos de mulher: mudrá, que simplesmente serve ao homem para efeito do exercício do maithuna; shaktí (esposa ou companheira), em igualdade de condições com o parceiro, circunstância na qual há uma troca de energias e ambos evoluem na senda tântrica; e o terceiro tipo, a dêví (literalmente, deusa), no qual a mulher domina as relações afetivas, profissionais, etc. Ela tem o poder de despertar no homem potencialidades até então desconhecidas, e até muitas vezes torná-lo totalmente submisso.
A relação sexual pode ser praticada no intuito de reverter os processos da natureza. Pode-se praticar sexo meramente como uma descarga fisiológica e um meio de preservação da espécie; ou ainda como uma alavanca de aprimoramento, evolução pessoal, e conseqüente benefício da Humanidade. Todas as linhas do Tantra ensinam técnicas e cultivam intensamente o maithuna, ampliando a duração do ato para o prolongamento do prazer. Porém, apenas a linha branca utiliza a relação sexual sem orgasmo.


O Contato Sexual sem Orgasmo
No Dakshinacharatantra, o contato sexual sem orgasmo é uma opção recomendada.
Em primeiro lugar, devemos esclarecer a diferença entre orgasmo e ejaculação, já que para a maioria das pessoas os dois significam a mesma coisa. Ainda mais que quase todos os autores de livros “tântricos”, influenciados por um sistema patriarcal, mencionam apenas a ejaculação. Essa, na verdade, nada mais é do que a emissão do sêmen, característica masculina. Ora, o orgasmo é a energia que se descarrega no final da relação e ejaculação é a matéria orgânica, o sêmen, que se elimina junto (ou não) com o orgasmo. O que se pretende no Dakshinacharatantra é aproveitar essa energia chamada orgasmo, em vez de sempre desperdiçá-la no término do ato, o que ocorre tanto na mulher quanto no homem.
Com sua postura desrepressora, o Tantra enfatiza e tira proveito da prática do maithuna, permitindo o desenvolvimento das potencialidades humanas. O que se ensina aqui há milênios, somente agora vem sendo confirmado através de pesquisas científicas feitas sobre a energia orgástica.
No período em que os animais estão no cio há um aumento da carga hormonal. Eles tornam-se então reprodutores em potencial, e tendem a não ficar doentes nem morrer prematuramente.
Algumas décadas atrás, foi feita uma experiência em laboratório com trutas. Num aquário circular e com um bombeamento de água para simular umacorredeira foram colocadas algumas fêmeas prontas para a desova. Nadando contra a correnteza, elas não paravam, não desovavam e nem se cansavam. Mais tarde, uma delas foi retirada e colocada num outro recipiente com água parada. E, tão logo desovou, morreu. Enquanto isso, as outras que continuaram nadando no aquário de água corrente permaneceram vivas por um tempo muito maior. Com esse ensaio, deduzimos o quanto a procriação pode pesar na balança entre a vida e a morte.
Sob outro prisma, verificamos também o que ocorre com algumas espécies de animais, cujos machos são mortos pela fêmea mesmo no ato da fecundação como por exemplo, o zangão, o louva-a-deus, alguns tipos de aranha, etc. Já que cumpriram o papel da fecundação, esses machos não têm mais utilidade para a sua espécie.
A natureza faz sempre o que for mais vantajoso para garantir a perpetuação das espécies. O que representa a vida de um indivíduo senão um piscar de olhos em relação à continuidade de sua espécie? Qual a importância de uma formiga, um lagarto, ou uma vaca, isoladamente? Todos podem ser facilmente sacrificados aos milhões, se o objetivo for a continuidade da espécie.
O que diferencia o ser humano do animal “irracional” é que o primeiro usufrui da liberdade para interferir nos processos naturais. Já o outro é levado pelas forças do instinto e quando sente o impulso fisiológico se acasala por meio de uma relação sexual trivial.
Na página seguinte, veja como o Dr. Fritz Khan, em seu livro A Nossa Vida Sexual (pág. 210), representa a excitação e o prazer do homem durante a relação sexual comum. Compare-o, projetado no gráfico maior, com a relação sexual desenvolvida no Tantra.
Analisando estes dois gráficos podemos ver que no primeiro há uma subida de excitação, uma brusca elevação que é o orgasmo e, em seguida, a depressão rápida até o nível zero. Já o segundo gráfico nos mostra que, antes da energia sexual chegar ao clímax e explodir em orgasmo, o praticante diminui a intensidade do contato, deixa que o corpo se restabeleça para, em seguida, dar continuidade ao exercício. Isso pode durar alguns minutos e se prolongar por várias horas.
Na relação sexual do Tantra, o que ocorre na esfera genital com a ampliação energética é um grande prazer que vai se espalhando e tomando conta de todo o corpo e o psiquismo do praticante.
Com o desenvolvimento da potência sexual e da contenção do orgasmo, pode-se entrar em níveis de consciência supra-humanos. Por isso é que o Tantra considera o parceiro sexual como uma divindade em carne e osso. Sem desperdiçar a força orgástica, de uma certa forma podemos dizer que, ao invés de se gerar um filho para o lado de fora, estivesse gerando uma nova pessoa do lado de dentro.
Tanto a linha negra quanto a linha branca do Tantra buscam a ampliação da energia sexual. Entretanto, há diferença de opiniões entre as duas: depois de um longo contato e de uma intensa satisfação, enquanto que, na linha negra tem-se o orgasmo no final da relação, na linha branca sugere-se a contenção do orgasmo. Segundo esse ponto-de-vista, o orgasmo nada mais é do que o fim do prazer: Omni animale post coitum triste est
Na retenção orgástica aumenta-se tanto a força genésica que, simplesmente, a natureza preserva o indivíduo. Com isso, atenua-se tanatos, o impulso da morte e destruição; e intensifica-se eros, o impulso de vida. Tornando-se um reprodutor em potencial, possivelmente útil à espécie, é-lhe garantida uma vida mais longa e plena.
Dentre as conseqüências da exacerbação do prazer e do refreamento do orgasmo estão: o aumento do próprio desempenho sexual, a melhoria da saúde, o aumento da capacidade imunológica, ampliação dos sentidos, das percepções sensoriais e extra-sensoriais, dos reflexos, bem como, mais alegria e menos depressões, melhor produtividade no trabalho, nos estudos, nos esportes, etc.
Para usufruir da energia gerada pelo maithuna saudavelmente é preciso que se tenha toda uma infra-estrutura física e psíquica. Tal elaboração é obtida pelas técnicas do Yôga. E mais, o praticante de Yôga poderá exercer o sexo tântrico tendo uma outra motivação, além das conseqüências citadas. Nesse caso, a sua força sexual o auxiliará no despertamento da kundaliní e, conseqüentemente, o conduzirá ao samádhi, meta do Yôga.
A linha branca, ainda, possui uma variante de Tantra sem contato sexual. Aqui, existem duas opções para se trabalhar a energia sexual. São elas: a via seca e a via úmida. A via úmida pode ser adotada pelas três linhas do Tantra (negro, cinza ou branco), enquanto que a via seca constitui mais uma opção da linha branca. Nela, cada pessoa tem a liberdade de fazer o que quiser com o seu sexo, inclusive a de não usá-lo, por quaisquer motivos.
Conquanto a via seca do Tantra se assemelhe à linha brahmáchárya, que não utiliza o sexo, existem diferenças marcantes que separam esses dois caminhos. Enquanto o seguidor da corrente brahmáchárya reprime sua sexualidade, o seguidor da linha tântrica a cultiva. Por princípio, o tântrico, via seca, opta por não ter contato sexual, enquanto que o brahmáchárya não o tem por achá-lo proibido. Um exemplo típico da corrente do Tantra branco, via seca, foi o Mestre Ramakrishna, que viveu no final do século xix d.C.

T   A   N   T   R   A















             LINHA             LINHA           LINHA
             NEGRA            CINZA          BRANCA
















                                             VIA ÚMIDA         VIA SECA



Outras Práticas Tântricas
Como método de evolução do ser humano, o tantrismo recorre às práticas do Yôga. Vejamos, então, algumas dessas práticas utilizadas conforme a interpretação do tantrismo.

Pújá
No tantrismo, pújá significa adorar, venerar, honrar ou reverenciar. Esse termos pode também ter outros significados, tais como, oferenda, honra ou retribuição de energia ou de força interior (formas pelas quais nos referimos ao pújá no SwáSthya Yôga).
O pújá é uma maneira natural e instintiva de retribuição. Num exemplo singelo, podemos relacioná-lo ao fato de uma criança que, ao chegar na escola, espontaneamente, dá uma flor à sua professora.
A prática do pújá faz parte de todas as tradições orientais. Na Índia, temos o pañchapújá, as cinco formas de pújá externo, através do qual o devoto faz uma oferenda ao templo ou a seu ishtadêvatta (divindade particular). O pañchapújá consta de flores, frutos, incenso, tecidos e dinheiro. O Yôga também se utiliza do pújá mas, geralmente, feito sem objetos materiais. É o caso do manasika pújá (pújá mental). Ele se caracteriza por uma oferenda, de energia, amor, carinho, lealdade, e votos de saúde, prosperidade e felicidade, feita pelo discípulo ao seu Mestre.
Juntamente com aquilo que se oferece, é preciso que haja bháva. Bháva significa sentimento, devoção, atitude interior ou disposição. Segundo oKúlavali Tantra, “as palavras não podem expressar o que seja bháva, assim como o melado somente pode ser compreendido pelo paladar daquele que o saboreia e nunca através de explicações”.
Existem quatro níveis de bháva no tantrismo. O primeiro nível, que é o tipo mencionado acima, chama-se pújábháva e que, como já vimos, se subdivide em externo (bahya), e interno (manásika). No segundo nível está o japabháva, feito a partir da repetição de mantras, que podem ser vocalizados verbalmente ou mentalmente. A seguir vem o dhyánabháva, que consiste em ampliar a concentração no objeto da devoção. E, finalmente, o último grau, que é o coroamento de todos os tipos de bháva, o swabháva.
Na linguagem shakta, swabháva é a compreensão da Shaktí em sua própria essência, contida em todas as manifestações do Universo. Conforme diz oGandharva Tantra, “aquele que está sempre unido ao seu adorado perceberá, certamente, sua presença em tudo o que vê, ouve, sente, cheira; em qualquer ser da natureza, mineral, vegetal ou animal; em todo objeto e pessoa, em toda comida e bebida, na música, nas roupas, nas festas, desde o estado de vigília até o de sono profundo. Quando, enfim, a presença do outro é uma constante em seu coração, tal praticante estará em swabháva...”
O pújá, como um processo de empatia entre aquele que faz e aquele que recebe, é diretamente ligado ao nyása. Nyása traduz-se como identificação. É um tipo peculiar de concentração que atua no psiquismo, principalmente. Consiste na capacidade de se estabelecer uma sintonia profunda com pessoas vivas ou não; com personagens que existiram realmente ou com formas mitológicas; ou ainda, com um animal, com uma árvore, com uma flor, com uma pedra, etc. O nyása é como um cristal transparente, que absorve em si a forma e a cor do objeto que lhe é próximo.

Mudrá
Mudrá significa gesto, selo ou senha. No Yôga, mudrá designa os gestos reflexológicos, simbólicos ou magnéticos feitos com as mãos.
Shivánanda diz em seus livros que a presença de mudrá, pújá e mantra, caracteriza a herança dos Tantras. Devemos recordar que o SwáSthya Yôga, de raízes tântricas, tem sua prática básica iniciando-se exatamente com essas três partes.
No livro Faça Yôga Antes Que Você Precise, o Mestre DeRose esclarece que “Os mudrás atuam por associação neurológica e por condicionamento reflexológico. Não podemos negar um componente cultural, que reforça ou atenua o efeito dos mudrás. Sua influência na esfera hormonal é inegável... Um fato curioso e que só pode ser atribuído ao inconsciente coletivo é a ‘coincidência’ de que, em épocas diferentes, hemisférios diferentes, etnias e culturas diferentes, os mesmos gestos são observados com o mesmo significado... Os mudrás do hinduísmo são originários da antiga tradição tântrica e tanto o Yôga quanto a dança clássica hindu - o Bhárata Natya - utilizam-se deles. Nos Yôgas mais tardios essa arte ficou praticamente extinta, limitando-se a uns poucos mudrás.”
O mudrá está intimamente ligado ao nyása. Cada gesto conduz o praticante a específicos estados de consciência, permitindo-lhe entrar em contato e a se identificar com todos os Mestres e demais discípulos que pertencem a uma mesma linhagem. (Dessa forma, ao executarmos o pránáyáma alternado, por exemplo - um tipo de respiratório no Yôga - não devemos utilizar, aleatoriamente, mudrás de outras escolas.)
Podemos compilar mais de 100 mudrás de tradição tântrica. Aqui, citamos os cinco mais conhecidos, e que são bastante utilizados nas práticas do nosso método: o Shiva mudrá, o jñána mudrá, o átmam mudrá, o pronam mudrá e o trimurti mudrá.

Mantra
Mantra pode ser traduzido como vocalização. Compõe-se do radical man (pensar) + a partícula tra (instrumento). Conforme escreve o Mestre DeRose, no livro Faça Yôga Antes Que Você Precise, “é significativa tal construção semântica, já que o mantra é muito utilizado para se alcançar a ‘supressão da instabilidade da consciência’, denominada intuição linear ou... meditação!”
Alguns mantras constituem-se de várias sílabas, palavras e notas musicais, sendo denominados kirtans. Temos nessa categoria, por exemplo, o Shiva Mantra, o Gáyatrí Mantra, o Maha Mantra, etc. Outros tipos podem ter uma só palavra, uma só sílaba e uma só nota musical. Os mantras, em geral dessa última categoria, quando são vocalizados repetidamente denominam-se japa (repetição). De qualquer maneira é fundamental que pertençam a uma língua morta. Em se tratando de Yôga, somente tem validade se for utilizado o idioma sânscrito.
As fórmulas mântricas mais potentes são aquelas que não possuem sentido literal, nem tradução, nem significado e carregam uma força ancestral capaz de interferir no psiquismo humano; e ainda, muito além disso, transformam a matéria, em geral. A combinação dos sons é uma arte que foi desenvolvida, empiricamente, pelos Mestres de Yôga da antiguidade, que viviam em contato mais efetivo com a Natureza.

Shuddhi
Shuddhi traduz-se como purificação. Como tal, pode ser externa e interna, segundo o tipo de escola que a adote.
Para citar um exemplo no tantrismo, temos o chamado bhúta shuddhi. Significa purificação dos elementos. Consiste em imaginar que, a partir dos tattwas mais densos, os mahabhútas, o elemento prithiví (terra) é absorvido por apas (água), depois em agni (fogo) que por sua vez é dissolvido em váyu (ar) e, a seguir, no elemento menos denso, ákásha (éter). Depois dessas dissoluções, o praticante deverá intentar, num processo mental, a transcendência ao ahamkára (ego) até que, ultrapassando todos os tattwas da Prakriti, chegue à Shaktí.
Uma variação de bhúta shuddhi utilizado e desenvolvido pelo Yôga tântrico, consiste na purificação das nadís (meridianos ou correntes por onde circula a bioenergia ou prána), seja através de técnicas tais como mantras, pránáyámas, kriyás, ásanas; seja através de uma seleção alimentar e de uma reeducação das emoções, para que o praticante não suje seu corpo com detritos tóxicos de sentimentos como o ódio, a inveja, o ciúme, o medo, etc.

Dháraná e Dhyána
Dháraná traduz-se como concentração; e dhyána, como intuição linear (ainda, contemplação ou meditação). A meditação é o estágio mais avançado da concentração. São técnicas puramente yôgis e, em determinadas circunstâncias, utilizadas no Tantra.
Um exemplo típico de dháraná e dhyána realizados no tantrismo é o manidwípa, a meditação na ilha de pedras preciosas. O Ghêranda Samhitá (Cap. VII, 2-8), escritura tântrica da Idade Média, orienta essa prática da seguinte maneira: “Imagine o praticante que há um grande oceano de néctar em seu próprio coração. E no centro dele há uma ilha de pedras preciosas, cuja areia está salpicada de brilhantes. Por todos os lados encontram-se árvores frondosas, carregadas de flores e frutos tenros. No meio do arvoredo deve ser imaginada uma enorme e antiga árvore com quatro ramos (representando os quatro Vêdas), também repleta de flores e frutos. As abelhas zumbem e os pássaros cantam... Sob essa árvore deve ser visualizada uma pequena plataforma com um belo trono confeccionado de pedras preciosas. Sobre esse trono, deve estar sentado o Ishtadêvatta, cujas formas, vestimentas, cores e adornos já haviam sido previamente descritos e ensinados pelo Mestre do praticante”.
O tantrismo é caracterizado também por um elemento chamado bhakti, que significa devoção. Bhakti está implícito na Mãe-natureza, na medida em que alguém se sinta como seu filho; está inserido no infinito macrocosmos, conquanto se habite no finito microcosmos; ou pode ser representado como divindade pessoal (Íshwara), diante da impotência humana frente ao ciclo existencial.
A filosofia tântrica se utiliza de imagens e formas mitológicas da tradição hindu, possibilitando ao praticante concentrar-se e meditar no seu respectivo objeto de reverência ou devoção. Por outro lado, independentemente daquilo em que se foca a atenção, importa muito mais a concentração em si. É a partir dela que o praticante se predispõe à meditação, uma das técnicas do Yôga, com a qual poderá galgar um estado de consciência denominado samádhi. Nesse ponto, ele se torna um yôgi.

Yôga Tântrico, Yôga Brahmáchárya,
e a Kundaliní
Associados ao Yôga, existem dois grupos comportamentais opostos entre si: o de linha tântrica e o de linha brahmáchárya. Ambos afirmam que despertar a kundaliní é fundamental. Porém, apenas a linha tântrica se utiliza do maithuna como uma alavanca de evolução, explorando a sensorialidade. A outra classe, praticada pela grande maioria dos yôgis na Índia, restringe o contato sexual. Conseqüentemente, é anti-sensorial. Na primeira categoria se encontra o Yôga de tendência tântrica, e, na segunda, o Yôga de tendência brahmáchárya.
O voto brahmáchárya ou celibato, geralmente é feito por monges que ostentam o título de swámis, aos quais estão proibidas as relações sexuais. A grande maioria dos estabelecimentos de Yôga da Índia segue essa corrente. Nessas escolas, por exemplo, uma pessoa que não fez o voto brahmáchárya, poderá até praticar algumas técnicas do Yôga, mas se quiser, de fato, tornar-se um yôgi dessa linha, não poderá casar-se e se já tiver família terá de abandoná-la para morar no áshram (mosteiro).
Nos áshrams que possuem um padrão de vida brahmáchárya não se utilizam de alimentos que possam excitar o paladar e, conseqüentemente, o sexo. Não é para menos. Nos livros de Shivánanda temos: “afaste-se das mulheres” (...) e “o alho e a cebola são piores que a carne”. Como são alimentos energizantes, estimulam o instinto sexual, que deve ser aniquilado, segundo o sistema brahmáchárya.
Por tudo isso, o comportamento e a prática de um Yôga de linha brahmáchárya não pode ser confundido com o comportamento do Yôga de linha tântrica. O processo e os resultados são completamente diferentes. Enquanto o Yôga brahmáchárya prega a evolução através do sofrimento e da repressão sensorial, o Yôga tântrico conduz à evolução através do prazer e da liberdade.
Citando alguns Mestres de Yôga hindus contemporâneos que tenham de fato se iluminado, podemos ter Ramakrishna e Aurobindo, que eram de linha tântrica. Por outro lado, poderíamos citar, aproximadamente, uns quarenta Mestres de linha brahmáchárya. Levando-se em consideração que quase um bilhão de pessoas na Índia segue a tradição brahmáchárya e que alguns poucos milhares seguem o Tantra, essa desproporção demonstra que um percentual extremamente elevado têm sucesso e atingem a meta. Segundo Yôgánanda, de cada mil pessoas que seguem o sistema brahmáchárya, só uma consegue permanecer, e de cada mil que permanecem, apenas uma atinge a meta.
Apesar de serem sistemas opostos, esses dois grupos de Yôga têm em comum a valorização da sexualidade, conquanto divirjam na metodologia. Do ponto de vista brahmáchárya, se essa energia é assim tão sagrada, não se pode desperdiçá-la e sim, economizá-la. Por outro lado, temos a opinião da linha tântrica: sendo tão importante, essa força deverá ser aprimorada e desenvolvida com mais intensidade.
A sexualidade é condição sine qua non no processo evolutivo do Yôga. Kundaliní traduz-se por serpentina ou enroscada. Ela é conhecida no tantrismo sob as mais diversas denominações: bhujangí, íshwarí, kundalí, kúlakundaliní, mahakundaliní, arundhatí, shaktí, etc. Segundo o SwáSthya Yôga, kundaliní é uma energia física, de natureza nervosa e manifestação sexual.
Dentro da psicologia ocidental, os termos libido ou orgônio podem designar diferentes aspectos dessa energia. Ocorre que, como ela está associada ao sexo, aqueles que trazem uma herança cultural judaico-cristã, impregnada de culpa e pecado, têm medo de trabalhar essa força. Entretanto, a kundaliní é imprescindível na tradição hindu, tanto na corrente tântrica, que se utiliza do sexo, quanto na corrente brahmáchárya, celibatária.
Usando a terminologia do shaktismo, kundaliní é a Shaktí individual que, como uma serpente de fogo, está enroscada três vezes e meia em torno do lingam (falo), na base da sushumná. E, estando em sono profundo, essa serpente poderá ser despertada através das técnicas yôgis, tais como pránáyáma, bandha, ásana, dhyána e outras técnicas ensinadas por um Instrutor formado e competente.
O que conduz o praticante à evolução é a Shaktí kundaliní. O Mestre dá o impulso inicial para que o discípulo se exercite e, finalmente, possa realizar a união tântrica Shaktí-Shiva no sahásrara chakra. Portanto, somente através das práticas é que o discípulo poderá ativar sua energia latente, a kundaliní, que o conduzirá ao estado de samádhi.
Existem inúmeras maneiras para despertar e dinamizar essa força. Sir John Woodroffe faz a seguinte descrição: “Através das nádís idá e pingalá, a energia sai e entra pelas fossas nasais. Mediante kúmbhaka, o prána deixa de atuar sobre o ar atmosférico e retorna à envoltura vital, o múládhára chakra, produzindo aí uma ação fora do normal. Quando tal energia se potencializa, a consciência torna-se familiar com a Mãe-real, a kúlakundaliní. Despertada, ela ascende pela sushumná, podendo ir até o sahásrara chakra. Nesse local se produz o néctar que o sádhaka absorve com prazer. Aumentando o tempo de kúmbhaka, aumenta-se a retenção da kundaliní na sushumná e, então, ela deve ser dirigida a cada chakra, unida ao Ishtadêváta correspondente, e na meditação dos Dêvatás, masculinos e femininos. Eis que o praticante se converte em amo do dêváta de cada chakra e deixa de ser escravo para ser o senhor... Princípios del Tantra, págs. 502, 503.
Como pudemos constatar em sua parte prática, o tantrismo utiliza muitas técnicas do Yôga. O mantra, por exemplo, é enfatizado da seguinte forma noKularnava Tantra: “Alcançar o siddhi (poder) do mantra é impossível sem a prática do Yôga”. Assim, podemos dizer que o mantra é uma das técnicas que ajudam o despertamento da Shaktí kundaliní. E, como vimos, o trabalho com a kundaliní só é possível mediante as técnicas yôgis.
Shivánanda, médico hindu, Mestre yôgi (leia-se yôgui), em vários de seus livros, diz que nenhum samádhi é possível sem o despertar da kundaliní (por exemplo, em seu livro Kundaliní Yôga, págs. 35, 81 e outras). E se, segundo Pátañjali, codificador do Yôga Clássico, a meta do Yôga é o samádhi, logo, sem kundaliní não há Yôga.


[1] As escrituras incorporadas ao patrimônio do hinduísmo são denominadas shástras. Como shastras, além dos Tantras, temos os Vêdas, as Gítás, osSútras, as Upanishads, os Puránas, e outros.
[2] Para saber mais sobre pújá, consulte o livro A Força da Gratidão (Pújá), deste autor.
[3] Para saber mais sobre mudrá, consulte o livro Mudrá. De mãos dadas com o Yôga Antigo, da Profa. Renata Sena.
[4] Para saber mais sobre mantra, consulte os CDs de Mantra dos Mestres DeRose, Carlos Cardoso e Edgardo Caramella.
[5] Para saber mais sobre essas e as demais técnicas citadas neste capítulo, consulte o livro Tratado de Yôga, do Mestre DeRose.
[6] Achárya significa servidor. Brahmáchárya quer dizer servidor de Brahma. Através dos milênios, o termo brahmáchárya passou a significar, também, celibato. 


Tantra - Á Luz do Vidya Yoga e do Hinduísmo

 



                          TANTRA – Á LUZ DO VIDYA YOGA E DO HINDUÍSMO 


Os mestres do vidya yoga falam sobre o conhecimento milenar do tantrismo, a arte espiritual do amor e do comportamento humano com um sistema filosófico e psicológico voltado para o autoconhecimento e a auto-realização. 

Tantra é um termo sânscrito que deriva da raiz tan (extensão) e que significa literalmente “tecido, teia, trama, regra, ritual, comportamento”. O Tantra é conhecido como uma ágama, isto é, uma tradição devocional ou doutrina filosófico-religiosa que dá poder e valoriza o aspecto feminino personificado em Shakti. 

Shakti é a energia feminina ou negativa, no sentido de polaridade. Shakti também pode ser traduzido como “esposa”. O tantra é a criação da expressão comportamento da índia antiga, com diversas divisões, entre elas a escultura, a pintura, a poesia, a arte em geral, a sexualidade, a psicologia, a dança, etc. Segundo George Feuerstein, o tantrismo é o ápice de milênios de experimentação yogi entre o corpo e a mente. Portanto, trata-se de um estudo profundo do comportamento humano: um estilo de vida que toma por base a liberdade do corpo e da mente para se atingir a espiritualidade plena. 

Todavia, essa liberalidade não é num sentido pejorativo de orgia, como alguns fazem crer, mas num sentido infinitamente mais consciente e profundo. O tantra é liberdade de expressão, de pensamento e de sentimento; é uma forma de expressão livre de obstáculos e impedimentos que são condicionados pelo falso moralismo de uma sociedade; é uma maneira de pensar, agir e sentir de acordo com a consciência tranqüila, com espontaneidade e naturalidade. Não é uma religião, mas uma doutrina filosófico-religiosa ou filosófico-espiritualista. 

Tantra também é o nome dado ás escrituras do budismo varja yana e do hinduísmo tradicional, e também é conhecido como “A Arte Espiritual do Comportamento e do Amor”, segundo alguns mestres hindus. A iniciação tântrica, chamada da Diskha, e de extrema importância, porque o Tantra Shastras – obras de profundo conhecimento espiritual – abordou uma linguagem iniciativa e bem elaborada, não permitindo que curiosos tomem conhecimento do verdadeiro sentido doas palavras transmitidas. Somente um sádhaka (praticante) sério ou um tantra guru (mestre de tantra) é que poderá compreender. 

A linguagem adotada é denominada shandhya bháshya ou “dissertação silenciosa”. Por esse motivo, o tantra só deve ser praticado com auxílio de um mestre competente (e não por patifes). O mestre reconhecerá a classe a que pertence o futuro discípulo, que será enquadrado dentro dos requisitos necessários para a prática tântrica. A iniciação elimina o véu do mistério que a envolve e capacita o discípulo a captar a verdade oculta nos textos antigos. 



A PRÁTICA – TANTRA SÁDHANA 

Sádhana, em sânscrito, significa literalmente “prática ou ritual”. É a seqüência que ajuda o discípulo a se auto-realizar no caminho do tantra; é um meio para se conquistar a meta da vida humana completando esse nível de evolução no qual nos encontramos. O sádhana é o que produz o siddhi, os poderes psíquicos imanentes do homem. 

De acordo com os ágamos hindus, há 108 tantra. Cada um possui básica e teoricamente, Nove divisões (navanga tantra), a saber: 

1.Jñana ou vidya = conhecimento avançado e técnicas de auto-conhecimento 

2.Yoga = prática propriamente dita 

3.Kriya = rituais específicos e técnicos 

4.Puja = reverências ou saudações 

5.Nyása= formas de identificação (técnicas psicológicas avançadas) 

6.Múdras= gestos 

7.Bhuta Shuddhi = técnicas de purificação dos elementos e domínio de kundaliní. 

8.Yantra= simbologia iniciática 

9.Chárya= o comportamento ou conduta. 



AS PRÁTICAS TÂNTRICAS SÃO DIVIDIDAS EM QUATRO ETAPAS: 

1.Mridu tantra sádhana = prática inicial ou moderada. 

2.Mádhya tantra sádhana= prática mediana ou regular. 

3.Adhimátra tantra sádhana= prática adiantada. 

4.Adhimátratáma tantra sádhana= prática avançada ou superior. 



A DIVISÃO DO TANTRA 

A prática (sádhana) é comumente dividida em sete caminhos ou tendências diferentes; as mais importantes e mais praticadas são as três primeiras, a saber: 

1* shaivachára tantra= seguidores da linha tradicional shivaíta. 

2* Dákshinachára tantra = seguidores da linha branca 

3* Vamachara tantra = seguidores da linha negra. 

4* Vedachára tantra = seguidores da linha védica. 

5*Vaishnavachára tantra = seguidores da linha tradicional vishnuíta. 

6*Siddhantachára tantra = seguidores da linha de Shri Siddha, o asceta. 

7*Kaulachára tantra = seguidores da escola Kaula. 



O “caminho da esquerda”, denominado vamacháratantrik ou vamachára tantra, emprega cinco elementos, denominados panchatattwa e que estão vinculados diretamente á matéria. Afirma-se que os quatro primeiros elementos são estimulantes ou afrodisíacos para a consumação do último. Os cinco elementos são: 

1*Mádhya = o vinho ou outra bebida alcoólica 

2*Mansa = qualquer tipo de carne da terra ou do ar. 

3*Mátsya = qualquer tipo de peixe (carne do mar) 

4*Múdra = qualquer tipo de cereal tostado. 

5* Maíthuna = a relação sexual iniciática 

O “caminho da direita”, chamado dakshina cháratantrik ou dakshinachára tantra, emprega substitutos para os pancha- tattwas, trocando o vinho por líquidos não – alcoólicos e carne por vegetais; a meditação ma técnica de união entre Shiva e Shakti e a relação sexual, pela auto – entrega a Brahman. 

O estilo ou “caminho do meio”, também conhecido como shaivacháratantrik ou shaivachára tantra, é o mais flexível e o mais equilibrado de todos é notadamente conhecido pelos eruditos como “o caminho de shiva” ou “o caminho da magia branca tântrica”. O shaivachára tantra inclui tanto o caminho da esquerda como o da direita. 

MATERIAIS UTILIZADOS – UPACHÁRA TANTRA 

O tantra utiliza-se de diversos materiais para suas práticas que são: 

1*Ásana = exercícios 

2*Vastra = roupa de prática 

3*Gandha = perfume 

4*Dipa = luz 

5*Dhupa = incenso. 

6*Yantra = símbolos 



DIFERENÇAS EXISTENTES 

Tantra – Filosofia comportamental de tendência matriarcal e sensorial com liberdade e responsabilidade. 

Tantra Yoga – Sistema prático e específico que leva á iluminação da consciência por meio de recursos tântricos milenares. 

Yoga Tântrico – Qualquer tipo de yoga que aceite os princípios do tantra. Por exemplo: vidya yoga, hatha yoga, tantra yoga, etc. 

Tantra Vidya Yoga – É o ponto de vista do vidya yoga e da cultura rishi a respeito do tantrismo. 

Como tudo o que é bom é corrompido, pedimos ao leitor o máximo de cuidado ao escolher uma filosofia que trabalhe com o tantra. O tantrismo é uma filosofia iniciática, isto é, passada de mestres para discípulos, de tradição oral, sendo muito difícil encontrar um mestre verdadeiro. 

O Tantra é a Arte de Viver. Ele nos ensina e nos orienta em todas, as questões da nossa existência, inclusive na maneira de criar os filhos, cozinhar, vestir-se, relacionar-se, divertir-se. Por isso, é importante ter como orientador alguém que tenha vivenciado diretamente aquilo que é ensinado. Muitas são as técnicas, porém muitos são os embustes e os embusteiros que se dizem “gurus” do tantra. 



AS TÉCNICAS TÂNTRICAS 

Como dissemos anteriormente, o tantra é uma Arte de Viver, um estilo de vida, de comportamento e de cultura. O Vidya Yoga ou Raja Vidya Yoga como antigamente era chamado, utiliza-se do Shaivachára Tantra e do Nirishwara Samkhya. Algumas técnicas adotadas podem ser descritas publicamente; outras não. Dentre outras as de domínio público são: 

Padma dhyána – meditação sobre o lótus. 

Yamakriya Sádhana – purificação e controle. 

Chakra olhyána – ativação dos centros bioenergéticos. 

Shakti Kundaliní Sádhana – Ascensão da Energia ígnea. No vidya Yoga é estudada a metafísica e a fisiologia energética do corpo humano, suas reações psicossomáticas, as nade ou “condutos” da bioenergia, o subconsciente na tradição rishi e hindu, a morte e seus estados pós-morte com técnicas de yoganidra avançada, projeção do corpo energético, as tradições ancestrais, etc. 
CONCLUSÃO: 

Hoje, Tantra no ocidente está retomando o seu lugar. Entretanto alguns professores e curiosos sem consciência estão transformando o tantrismo em algo pejorativo e repulsivo, numa manifestação de degeneração de alguns homens e mulheres. O pensamento dos verdadeiros mestres tântricos é valorizar e cuidar do corpo como um templo, para despertar a consciência espiritual do ser humano. Nenhuma outra filosofia é tão profunda e completa quanto o tantra. 

Sua visão ampla da realidade e sua percepção íntima do interior do homem encontram um completo sistema filosófico e psicológico de autoconhecimento e auto-realização. 



(Shri Kamala Devi e Shri Vyaghra Yogi)

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Sagrado Masculino e Feminino

 


Dia após dia podemos perceber inúmeros indicadores de que nossa sociedade está doente, como a desenfreada degradação ambiental que vem ocorrendo nos últimos séculos, a inversão de valores morais, a desvalorização das virtudes e da vida em si, a exaltação da habilidade de explorar as fraquezas do próximo em nome de vantagens pessoais e as frequentes guerras e mortes que acontecem pelo mundo em nome de deuses, nações e ideologias.

O resultado disso tudo é um mundo violento e artificial, onde as pessoas buscam o Ter mais do que o Ser, e a aparência parece importar mais que a essência. E todos nós sofremos com isso, pois a sociedade produz ideais de beleza e sucesso difíceis de serem alcançados e que, mesmo quando alcançados, não trazem contentamento e paz espiritual.

Vocês percebem que a mídia vende ideais de beleza e sucesso muitas vezes materialistas e fúteis?

Cada vez mais pessoas sofrem por não terem corpos normativos ou poder aquisitivo, ou até mesmo por não encontrarem satisfação no dinheiro e nas coisas materiais. Tentando preencher o vazio espiritual com compulsões e perversões, acabamos montando o cenário perfeito para a manifestação de distúrbios alimentares, sexuais, comportamentais e psicológicos. Há uma ânsia incessante por poder, riqueza material e satisfação sensorial.

Como chegamos onde estamos

O mundo de hoje é um produto de milênios da supremacia patriarcal, que moldou valores morais, espirituais, culturais, sociais e comportamentais e foi amparada pela hierarquia religiosa masculina.

Durante anos da história, toda e qualquer manifestação da energia feminina foi negada e suprimida. Assim, instaurou-se o que vemos hoje: uma cultura exclusiva e destrutiva, repleta de violência, conquista e dominação, desequilibrada e problemática. Nossa sociedade tem sido resistente às qualidades femininas; para muitos, possuir qualidades femininas significa ser frágil, dependente ou incapaz.

Os sistemas religiosos e sociais dos últimos milhares de anos tiveram predominância masculina e patriarcal, elevando o Deus Pai acima da Mãe Terra e homens acima das mulheres. A situação atual do mundo e do ser humano é resultado de anos de soberania patriarcal e excessiva valoração de qualidades masculinas em detrimento das femininas.

Entretanto, na história encontramos vestígios e registros de diversas culturas ancestrais que louvavam o Feminino, veneravam a Deusa Mãe e viviam de forma mais igualitária, sustentável e pacífica. Nunca foi tão urgente resgatar as memórias perdidas dessas culturas matriarcais para nos inspirar a reconstruir valores para um mundo mais saudável e justo.

A importância do Sagrado Feminino

O Sagrado Feminino não se restringe a gêneros; as qualidades femininas e masculinas existem tanto nas mulheres como nos homens. Algumas pessoas naturalmente carregam em si mais características masculinas ou femininas, sendo que no mundo atual há predomínio de energia masculina e isso está afetando negativamente a todos, principalmente as mulheres. É importante ressaltar que o Sagrado Masculino também é imprescindível e deve ser resgatado e ressignificado. Eis algumas qualidades associadas a cada princípio:


 

O Princípio Feminino está relacionado à fertilidade, receptividade, criatividade e intuição; já o Princípio Masculino se expressa por meio da lógica, do poder racional, da força motriz, do ímpeto e da proteção.  Nenhuma ideia é concretizada sem que haja alguma ação, portanto, a criação sempre virá da combinação e do equilíbrio de energias masculinas e femininas.

Os Princípios Masculino e Feminino são complementares, independem de gênero e devem estar em equilíbrio para que o Ser atinja seu máximo potencial. Ambos os Princípios podem se manifestar de forma distorcida e descompensada, gerando desequilíbrios no indivíduo e na coletividade:


Portanto, é importante observar a si mesmo e identificar qual Energia está se manifestando de maneira exacerbada e trabalhar para equilibrá-la.

Em tempos de crise global e energia masculina descompensada, é necessário resgatar o poder espiritual feminino, equilibrando as polaridades. A conscientização e valorização do Princípio Feminino ajudará todas as pessoas a alcançarem saúde emocional, autoestima, equilíbrio e paz, aumentando os níveis de respeito, gentileza, tolerância e cordialidade, promovendo assim a harmonia mundial.

No Universo, os Aspectos do Divino Feminino se manifestam em  restauração, vida, renovação, criação, nascimento, cura, receptividade, abertura, carinho, amor, compreensão, compaixão, intuição, sabedoria, perdão, a lua, conexão, harmonia, sensualidade…

 Esforços para conceituar o Sagrado Feminino

O intelecto humano tem a constante necessidade de nomear e conceituar tudo. Porém, certas forças e fenômenos estão além da nossa compreensão e são muito profundos, o que torna difícil defini-los. E o potencial espiritual feminino é inefável!

A própria racionalização excessiva está ligada ao princípio masculino em desequilíbrio. É necessário criar espaço para a sensibilidade feminina, para que o SENTIR se faça mais presente.

Neste contexto, deixo um jogo de palavras e proponho uma reflexão:

RELIGIÃO vs ESPIRITUALIDADE
ACREDITAR vs SENTIR
SEGREGAR vs UNIR

Viva suas próprias experiências e contemple a beleza da existência, reconhecendo a presença do Sagrado Feminino no seu dia a dia e produzindo assim percepções únicas e individuais.

 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

 

Sabe quando você conhece uma pessoa incrível e na hora do sexo sente que o mundo até desaparece, de tão boa que está sendo aquela experiência? Ou então quando você se interessa por alguém que faz seu coração acelerar, mas na hora H parece que alguma coisa deu errado entre vocês? Esses diferentes sentimentos podem ser explicados pela energia que trocamos durante o sexo.

Todas as pessoas emanam vibrações diariamente. Algumas liberam energias positivas, enquanto outras podem estar rodeadas por negatividade. Porém, o que define a nossa compatibilidade com outros indivíduos é o quanto as nossas energias combinam. Mesmo que você conheça uma pessoa que só emana positividade, talvez ela ainda não seja compatível com você.

Se tudo o que existe é energia e se trocamos energia com tudo o que interagimos, isso quer dizer que, na hora da intimidade, existe uma forte troca de energia vital. Sendo assim, no sexo, momento em que as relações são mais intensas, o corpo acaba exteriorizando toda a energia que antes estava acumulada; e, ao mesmo tempo, tem acesso a toda a frequência energética que pertence ao parceiro. Tudo isso intensificado pela proximidade e pela força dos chackras.

Casal deitado na cama abraçadas 

Esse encontro torna-se ainda mais satisfatório quando ambos os lados da relação estão na mesma frequência de energia. Isso se dá, pois os corpos compartilham “informações” que são transmitidas pela energia. Um parceiro é capaz, então, de deixar um “fio” de energia conectado ao outro, que pode ficar presente por muito tempo.

Nos relacionamentos sexuais acabamos irradiando uma quantidade enorme de energia pessoal e cada parceiro acaba deixando um pouco de sua frequência no campo magnético do outro. Essa ligação de energia é extremamente potente, podendo permanecer no corpo por anos, sendo ela responsável por aproximar a frequência de quem se relaciona dessa maneira.

Exemplificando este caso: se uma pessoa está preocupada, angustiada e cheia de problemas, cada um que se relacionar com ela compartilhará um pouco dessa preocupação. Da mesma forma, o oposto também acontece: um casal que se encontra na mesma frequência vibracional, em sintonia e harmonia, acabam trocando essa mesma carga e o prazer é ainda mais intenso.

Silhueta de um casal em frente de cortinas da janela em um quarto escuro 

Às vezes, mesmo que não tenhamos ideia do motivo, temos ótimas relações sexuais quando a sensação entre os parceiros é a de que se conhecem há muito tempo. Isso parece difícil de explicar, mas na verdade só ocorre por conta da frequência vibracional parecida em que ambos se encontram.

Essa conexão tão forte é chamada de amarra cármica e ela também merece atenção, pois pode causar sérios prejuízos quando nos relacionamos com alguém que não está em sintonia com nossas vibrações energéticas. É muito comum que, depois de transar com alguém, as pessoas sintam-se para baixo. Esse sentimento pode ser bem sutil, lembrando apenas uma preocupação ou cansaço, mas, na verdade, é exatamente aquele “fio” de energia que foi transmitido durante o sexo e que ainda está muito forte em seu corpo.

Quando isso acontece, é porque um dos parceiros estava numa baixa frequência energética e acabou compartilhando esse magnetismo.

É por isso que já presenciamos, ou ao menos ouvimos falar, de relacionamentos destrutivos. Nesses casos, sempre existe alguém que mantém-se em um campo magnético baixo, e, então, os sentimentos ruins aparecem e acabam transmitidos ao parceiro.  

Homem e mulher de olhos fechados para se beijar 

Um ponto muito importante também deve ser lembrado aqui: as amarras cármicas não têm nenhuma relação com a moral ou com o casamento. Existem, sim, muitos relacionamentos duradouros nos quais ambos os parceiros não estão em sintonia e acabam fazendo muito mal ao outro. E, por outro lado, em alguns encontros sexuais casuais pode haver uma conexão e equilíbrio energéticos impressionantes!  

Assim sendo, todos os seres humanos devem ficar muito atentos na hora em que se relacionam intimamente com outra pessoa. As vibrações de nosso corpo são responsáveis por nossa personalidade e por nosso estado de espírito, então é sempre bom ficar atento aos sinais e entender quando uma individualização pode ser bem-vinda.

Para purificar essa energia carregada que podemos receber, tente sublimar sua própria energia. Para isso, é necessária a interiorização por meio da reflexão e a conexão com o seu interior. É elevar a tensão sexual ao Plano Superior e não deixar que ela te controle e domine. Trabalhe sua energia interna para que você consiga exteriorizá-la apenas em forma de amor!

Agora, sabendo de todas essas informações, você certamente se sentirá muito mais livre para tomar suas próprias decisões e escolher com quem estará disposto a compartilhar aquilo que te dá mais vida: a energia.


Escrito por Lais Mori

A arte e o Tantra

Cada mais controverso do que conversar sobre o tantra. Talvez esta tenha sido uma das contribuições mais interessantes e contraditórias do oriente ao ocidente. Os primeiros contatos com esta prática espiritual somente chegaram na Europa no séc. XIX pelo então juizinglês  da Corte em CacutáSir John Woodroffe, que publicou um famoso livrochamdo “o poder serpentino”.

O fato é que existem varias linhas muito diferentes do tantra: jainista, budista, sikh  e hindu em várias vertentes: shaktas (envolve o rito do sagrado feminino), shivaistas (deus da destruição), vaishinavas (seguidores de Vishnu, preservador do Universo e que reencarnou em vários avatares), Ganopatas (adoradores de Ganesha– deus elefante) E Hanupatas (adoradores do deus macacoHanuman).

Independe dos mitos ou ritos de cada uma destas vertentes, todos tem algo em comum: a prática espiritual ou sádhana. Esta não nega a experiência  do mundo dos sentidos, pois é através das sensações corporais que alcançamos a realização.

Tantra é extremamente envolto em práticas de magias, amuletos, diagramas, imagens e mantras. É extremamente colorido e representa o corpo espiritual através dos chakras ou rodas de energia. Toda esta forma colorida em representar as artes e as técnicas profundas de meditação e de produção de estados modificados de consciência logo atraiu um grande numero de seguidores.

A origem precisa do Tantra é de difícil afirmação, mas historiadores em geral a colocam em torno do séc.V d.C. Segundo Feuerstein, ele foi um movimento em meio a crise do brahmanismopromovido pelas castas inferiores da Índia(pescadores, tecelões, comerciantes, lavadeiras) que estavam excluídos na espiritualidade hindu tradicional que excluía o povo da vivência espiritual. O tantra nasceu desta reação as castas religiosas e aos conceitos abstratos da filosofia Vedanta. Por isso foi uma religiosidade prática diretamente conectada ao Yoga.

Diferentemente da moral ortodoxa, o tantrismo sugeria mesmo em romper com as normas vigentes para alcançar a espiritualidade máxima. Passou a ser comum andar nus como prática de desapego, ou mesmo em alguns casos introduzir a prática da sexualidade sagrada, ingerir vinho e comer peixe.

 Embora estes ritos fossem comuns apenas para uns poucos grupos que executavam práticas de mão esquerda, isto em si, já evidenciava quão revolucionário e diverso era o tantra das representações religiosas tradicionais.

Para facilitar a iniciação ao Tantra tornou-se comum os usos de imagens coloridas de deuses, animais sagrados e a anatomia sutil e exotérica por meio de charkras coloridos (pontos de energia em forma de rodas) e os canais de energia. O objetivo do tantra estaria em despertar o “poder da serpente”, situado na base da coluna vertebral, ou região sexual e, conduzir esta energia ao topo da cabeça.

Figuras do sec XVIII

O rito da sexualidade sagrada era representado nas artes mesmo nos grupos que praticavam a retenção da energia sexual  por adotarem obrahmacharia.   A relação espiritual almejava equilibrar a energia feminina e masculina para se atingir a experiencia do divino. Neste caso a energia sexual retida garantia a ascensão da energia kundalini.

Nesta gravura há uma cena em que A deusa da Fúria Kali destrói um exército e ao final em êxtase dança sobre o corpo de Shiva que se apresenta com o lingam ereto.  O coito sagrado era uma relação não apenas mundana, mas sagrada em que mulheres e homens convertiam-se em deuses.

Na cultura religiosa budista o intercurso sexual aprece em diversas xilogravuras mostrando Buda mantendo relações sexuais com Tara, deidade feminina no budismo tibetano. O objetivo era o mesmo: alcançar a iluminação e a consciência cósmica por meio da sexualidade.

 

 

Toda esta abertura entre o sagrado e a espiritualidade acabou sendo fortemente reprimida por uma conjunção de fatores históricos: a retomada do poder por parte das castas bramânicas, as invasões islâmicas (700 a 1800 dC) e finalmente a ocupação britânica e a cultura repressiva da Era Vitoriana no séc. XIX.

Esta liberdade das artes, da sexualidade e dos ritos mágicos também exerceu influência nas relações com a natureza e o entendimento de uma mentalidade suave em relação a mãe terra. Os ritos do tantra incorporaram o princípio do ahimsa ou amor e paz condicional aos animais e a natureza, considerada a manifestação de Prakriti ou deusa da criação do mundo material.

Os Pujas tântricos substituíram os sacrifícios de animais por ritos pacíficos com flores, frutos e água. Pode-se afirmar que ao reforçar o imaginário e os mitos femininos,a violência das castas guerreiras e das castas sacerdotais patriarcais perderam sua força na representação do sagrado.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Qual a diferença entre Sexo e Tantra? OSHO

                                              

                                             


 

Seu ato sexual e o sexo tântrico são fundalmentalmente diferentes. Seu ato sexual é para aliviar; é como dar um bom espirro. A energia é jogada fora e você fica aliviado. Isso é destrutivo, não é criativo. É bom, terapêutico. Ajuda você a relaxar, nada mais.

O sexo tântrico é diametralmente oposto e completamente diferente. Não é para aliviar, não é para jogar energia fora. É para permanecer no ato sem ejaculação, sem jogar energia fora; permanecer no ato excitado — apenas na parte inicial do ato, não no final. Isso muda a qualidade — a qualidade final é diferente.

Tente entender duas coisas. Existem dois tipos de clímax, dois tipos de orgasmos. Um tipo de orgasmo é conhecido. Você chega ao pico da excitação, depois você não pode ir além disso: o fim chegou. A excitação chega a um ponto onde isso se torna involuntário. A energia pula para dentro de você e sai. Você fica aliviado, descarregado. A carga de energia é jogada; aí você pode relaxar e dormir.

Você está usando o sexo como tranquilizante. É um tranquilizante natural, o ajudará a dormir bem — se sua mente não estiver oprimida pela religião. Caso contrário, mesmo o tranquilizante não vai fazer efeito. Se sua mente não estiver oprimida pela religião, só então o sexo pode ser algo tranquilizante.

Se você sente-se culpado, mesmo seu sono será perturbado. Você se sentirá deprimido, você começará a se condenar e fará juramento de que não se entregará mais. Então o seu sono se tornará um pesadelo depois. Se você é um ser natural não oprimido pela religião e pela moralidade, então o sexo pode ser usado como um tranquilizante.

Este é um tipo de orgasmo — chegar ao pico da excitação.

O Tantra é centrado em outro tipo de orgasmo. Se nós chamarmos o primeiro tipo de orgasmo do pico, você pode chamar o orgasmo do Tantra de orgasmo do vale.

Nesse tipo de orgasmo, você não chega ao pico da excitação, mas no vale mais profundo do relaxamento. A excitação tem que ser usada por ambos no começo. É por isso que eu digo que no começo eles são iguais, mas no fim eles são totalmente diferentes.

A excitação tem que ser usada por ambos: ou você alcança o clímax da excitação ou o vale do relaxamento. Para o primeiro, a excitação tem que ser intensa — cada vez mais intensa. Você tem que crescer na sua excitação, você tem que ajudá-la a crescer em direção ao pico.

No segundo, a excitação é apenas o começo. E uma vez que o homem tenha penetrado, ambos, amante e amado podem relaxar. Nenhum movimento é necessário. Eles podem relaxar num abraço amável.

Quando o homem sentir ou a mulher sentir que a ereção vai ser perdida, então é necessário um pequeno movimento para voltar a excitação. E depois relaxe novamente. Você pode prolongar esse abraço intenso por horas, sem ejaculação, e depois ambos podem adormecer juntos. Este é o orgasmo do vale. Ambos estão relaxados, e se encontram como dois seres relaxados.

No orgasmo comum, vocês se encontram como dois seres excitados, tensos, tentando descarregar suas energias. O orgasmo comum parece loucura; o orgasmo tântrico é uma profunda, relaxante meditação.

Você talvez não esteja consciente disso, mas esse é um fato da biologia, da bioenergia, onde mostra que o homem e a mulher são forças opostas. São o negativo e o positivo, o yin e o yang, ou qualquer coisa que queira chamá-los — eles estão desafiando-se mutuamente.

E quando ambos se encontram num profundo relaxamento, eles se revitalizam um no outro. Ambos se revitalizam, tornam-se geradores, sentem-se mais vivos, tornam-se radiantes com a nova energia, e nada é perdido. Apenas pelo encontro com o polo oposto a energia é renovada.

O amor tântrico pode ser feito tanto quanto quiser. O ato sexual comum não pode ser feito da mesma forma porque você está perdendo energia ao fazê-lo, e seu corpo terá que esperar para recuperar. E quando você recupera energia, você irá perdê-la novamente. Isso parece absurdo. Sua vida inteira é gasta em ganhar e perder, recuperar e perder. Isso acabou virando uma obsessão.

A segunda coisa a ser lembrada: você talvez tenha ou talvez não tenha observado que quando você olha para os animais, você nunca os vê desfrutando o sexo. Nas suas relações sexuais, eles não estão sentindo êxtase ou desfrutando.

Olhe para os macacos, para os cães ou para qualquer outro tipo de animal. Em seus atos sexuais você não pode ver que eles estão sentindo êxtase ou desfrutando — você não pode! Parece ser um ato mecânico, uma força natural os empurrando em direção ao ato sexual.

Você já observou macacos em suas relações sexuais? Depois do ato sexual eles se separarão. Olhe para eles: não há nenhum êxtase neles, é como se nada tivesse acontecido. Quando a energia empurra pra fora, quando a energia é muita, eles a descarregam.

O ato sexual comum é exatamente como isso, mas os moralistas dizem exatamente o contrário. Eles dizem: "Não se entregue, não desfrute." Eles dizem: "Isso é como os animais fazem." Isto está errado! Os animais nunca desfrutam; só o homem pode desfrutar. E quanto mais fundo ele desfrutar, mais elevada será a humanidade. E se seu ato sexual pode torná-lo meditativo, extático — o mais alto é alcançado.

No ocidente, Abraham Maslow tornou este termo — experiência de pico — muito formoso.

Sua excitação chega até o pico, e depois cai. É por isso que, depois de todo o ato sexual, você sente uma queda. E é natural porque você está descendo de um pico. Você nunca sentirá isso depois de uma experiência com o Tantra. Você não se sente caindo. Você não pode cair além daquilo porque você está num vale. Melhor, você está subindo.

Depois que você faz sexo tântrico, você percebe que subiu, não caiu. Você sente que está com energia, mais vitalizado, mais vivo, radiante. E esse êxtase continuará por horas, até mesmo dias. Isso depende de quanto profundamente você estava.

Se você se move dentro do sexo tântrico, mais cedo ou mais tarde você perceberá que ejaculação é perda de energia. Não há necessidade disso — a menos que queira ter filhos. E com uma experiência tântrica você sentirá um profundo relaxamento durante o dia todo.

Após o ato sexual tântrico, e mesmo por dias você se sentirá relaxado — você se sentirá tranquilo, à vontade, não-violento, sem raiva, não-deprimido. E esse tipo de pessoa nunca é um perigo para os outros. Se ele puder, ele ajudará os outros a serem felizes. Se ele não puder, pelo menos ele não fará ninguém infeliz.

Só o Tantra pode criar um novo homem, esse homem que pode conhecer o eterno, o não-ego, e uma profunda não-dualidade com a existência crescerá.

Osho em O Livro do Homem